quinta-feira, 20 de outubro de 2016

#52 - "Ah, a noite que eu, sem fim, passei...", Ibn Sara

Ah, a noite que eu, sem fim, passei...
O Tempo alargava a sua duração
E dava-lhe o cerne do que na vida amei.
Comentaram alguns, pela noite fora,
Como se ia escoando a sua mansidão.
Mas a noite somente consentia a aurora...

Das nuvens tão denso era o breu
Que já não se sabia o que era Terra ou Céu.
Ao longe o raio entre trevas se escondia:
Era um negro que entre lágrimas sorria.

Brandi alto o sabre da minha vontade
E tingi o manto dessa mesma aurora
Ao ferir o colo da escuridade
Com o sangue da noite, pela noite fora.


(versão de Adalberto Alves)

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

#50 - CASA DESERTA, Mário Dionísio

Ah nada pior que a casa deserta,
sozinha, sozinha.

O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando
e a chuva caindo
e a casa deserta...

Ah nada pior que estes dias e dias,
de cachimbo aceso, com as mãos inertes,
com todas as estradas inteiramente barradas,
ouvindo a floresta.
Com tudo lá longe, na casa deserta,
ouvindo eternamente o vento soprando
e a chuva caindo, na noite, caindo...

Há uma cancela de madeira que ginga nos gonzos.
E um velho cão de guarda que ladra sem motivo.
Parece que é gente que vem a entrar.

E é só o vento soprando, soprando,
e a chuva caindo...

Mudaram muita vez as folhas da floresta.
E os olhos do homem são olhos de doido.
Fogão apagado, aceso o cachimbo, o mundo lá longe.

Ah nada pior que a casa deserta,
cheia dum sonho imenso que ficou na cabeça.
A casa deserta na noite deserta.

E o vento soprando
e a chuva caindo
e a casa deserta...

terça-feira, 4 de outubro de 2016

#49 - ACODE A NOITE..., António Luís Moita


Acode a noite, o dia se apagando.
A cidade impõe-se outra face.
O mistério, agora, é lírico e é brando.
se a mão lhe toca, abre-se.

É noite funda. Dos bas-fond diversos
o som que vinha, lúbrico, morreu...

-- É Deus, que assiste à dor de fazer versos.
Foi a minh'alma que se mereceu.